Tradução da entrevista do Linus Torvalds ao Simple-Talk (Parte 2)
Demorou um pouco e deu um certo trabalho, mas finalmente acabei de traduzir a entrevista do Linus Torvalds ao Simple-Talk. A primeira parte já foi publicada e se você ainda não leu, pode conferir clicando aqui! Gostaria de agradecer ao BR-Linux por ter divulgado a minha tradução e, é claro, por ter sido onde fiquei sabendo dessa entrevista.
Também gostaria de agradecer a todos que comentaram na primeira parte com elogios, críticas e agradecimentos. Isso é o que realmente faz valer a pena ter um blog, o feedback dos leitores
E, é claro, já agradeço de antemão a todos que comentarem aqui!
Confiram agora a segunda e última parte da entrevista:
Richard Morris: “Você acha que produtos como OpenOffice podem ganhar aceitação por serem clones de produtos comerciais amplamente usados ou você acha que eles precisam inovar antes de serem aceitos?”
Linus Torvalds: “Eu acho que “inovação” é uma palavra vulgar na indústria. Não deve nunca ser usada. Se tornou uma coisa de relações públicas para vender novas versões de seus produtos.
Foi Edison que disse “1% inspiração, 99% transpiração”. Isso pode ter sido verdade 100 anos atrás. Nos dias atuais é “0,01% inspiração, 99,99% transpiração”, e a inspiração é a parte fácil. Como um gerente de projeto, eu nunca tive dificuldades em achar pessoas com idéias doidas. Eu tive dificuldades em achar quem podia executá-las. Em outras palavras, “inovação” já foi muito vendida. E com certeza não deve ser aplicada em produtos como MS Word ou Open Office.
Então não, eu não acha que as pessoas precisam de mais inovação. Eu preferia ver mais pessoas vendendo seus produtos pela boa e velha “qualidade”.
E sim, eu acho que o Open Office pode competir. Software é uma área difícil, e nisso o responsável que está na área por muitos anos não tem apenas uma posição e relações públicas e é visto como “o inovador” (você continua usando essa palavra. Eu não acho que significa o que você acha que significa), mas ainda mais, eles simplesmente tem mais anos de experiência.
E ao contrário de “inovação”, os “anos de esforço” definitivamente importam neste mercado.
Claro que, quase sempre, “anos de esforço” sempre tendem a significar “anos de inchaço”, de tal forma que depois de um certo ponto, ajuda menos do que ajudava antes. Acho que é isso que você está vendo acontecer com o MS Office contra Open Office – a vantagem dos anos de esforço que a Microsoft tem está começando a se tornar incapaz de superar os custos do inchaço e do auto-satisfação.”
Richard Morris: “Você acha que o ano do desktop vai chegar? Se for chegar, o que a comunidade precisa fazer para que isso aconteça?”
Linus Torvalds: “Eu não acho que exista um “ano”. O que acontece é que o uso se expande. Todo ano. E eu não acho que seja tanto pelo kernel. Claro, você precisa de um kernel no desktop, mas as coisas que devem ser observadas pelo ponto de vista do desktop provavelmente não tem tanto a ver com o kernel quanto tem a ver com o uso de coisas como Firefox e Open Office, e com o desenvolvimento do Gnome e do KDE.”
Richard Morris: “A GPL é um assunto religioso para você ou foi escolhida por algum motivo doido?
Linus Torvalds: “Nenhum dos dois, sinceramente. Não é religioso – veja minha explicação sobre como eu tento evitar todo o assunto de “liberdade” pelo fator de ser uma argumentação sem sentido – mas também não foi por nenhum motivo doido. A GPLv2, mesmo que já faça quase duas décadas que a escolhi, continua sendo minha licença preferida.
Claro, eu também não posso dizer que foi tudo bem premeditado ou que passou por muito planejamento. A GPLv2 não foi minha primeira licença – eu comecei o Linux com uma licença mais restrita que dizia que você deveria redistribuir o código fonte e não podia vender de forma alguma.
Então o fato de que acabei usando a GPLv2 foi devido a várias circunstâncias aleatórias e “porque estava lá”, mas não foi nenhuma doideira em que eu não sabia onde estava me metendo
Muitas outras coisas foram mais “doidas”. Eu acho que fiz um trabalho bom e bem informado na escolha da licença, mas muitas das minhas outras escolhas do passado certamente não foram bem informadas. Eu nunca pensei que o Linux cresceria tanto até se tornar o que é hoje – nem mesmo em meus sonhos mais loucos. E toda essa coisa de começar a criar meu próprio Sistema Operacional do zero, isso sim foi uma doideira.”
Richard Morris: “John “Maddog” Hall costumava dizer que 5.2 bilhões de pessoas ainda precisam escolher seu sistema operacional e que tem de sobre pra todos. Bastava apenas chegar nelas antes do Bill e do Steve terem chegado. O que virou isso? A China, a Índia e a Indonésia já escolherem seus sistemas operacionais? Ou as universidades das BRICs começaram a apreciar os benefícios do .Net sobre o Mono?”
Linus Torvalds: “Eu acho que o código aberto tem um grande papel a fazer em vários lugares, não tanto pelo custo, mas por estar criando uma infraestrutura própria e conhecimento de software.
Essa é uma das vantagens do código aberto – você não está apenas comprando uma “caixa preta”, você está comprando toda uma infraestrutura que você pode estudar e criar sua própria.
E eu acho que parece estar sendo assim em alguns lugares. Especialmente em algumas partes da América do Sul, por alguma razão (provavelmente cultural). Mas eu certamente não acho que isso é uma coisa do tipo “ou tudo ou nada”, então enquanto esses países aumentam seus consumos de computadores, eu não acho que será radicalmente diferente de qualquer outra área.”
Richard Morris: “A proliferação das distribuições Linux é uma coisa boa ou ruim? Você preferiria que tivesse mais esforços e menos distribuições?”
Linus Torvalds: “Pessoalmente, eu sou um cara que acredita na escolha. Sim, pode ser confuso, e sim, pode fazer o mercado parecer mais fragmentado, mas por outro lado, também gera competição. E competição é uma coisa boa – é uma coisa boa mesmo dentro de um projeto. É o que faz as pessoas tentarem coisas diferentes e acaba sendo bem motivacional.
Então eu não acho que teriamos chegado a algum lugar sem esse monte de distribuições que temos por aí. Eu prefiro ter um pouco de boa discussão e até mesmo brigas do que uma paisagem calma com um único vendedor (ou dois vendedores que modelam o mercado)
Richar Morris: “É quase como se a “economia das distribuições” do Linux fosse parecida com o modelo de Taiwan; por exemplo: a economia Taiwanesa é diferente da Japonesa, da Coreiana e da Chinesa enquanto há uma desnatação organica constante e um limite ao crescimento das empresas individuais e ainda assim é altamente inovadora tecnologicamente. Red Hat e SuSE uma vez prometeram ser a Ford e a GM do Linux mas aonde elas estão agora? Ubuntu veio do meio do nada e acabou facinho com elas. O mesmo acontecerá com o Ubuntu?”
Linus Torvads: “Eu acho que isso é bem saudável. E eu sei que todo o modelo significa que você tem que correr pra se manter (em evolução, é chamado de “A Corrida da Rainha Vermelha”, quando você tem que correr apenas para manter seu lugar – de Alice no País das Maravilhas).
E isso é bom. Faz com que todos nós sejamos corretos. E eu digo “nós”, porque eu acho que efeitos similares acontecem dentro de cada projeto também: mantenedores não podem se acomodar apenas por causa da fama e encostar seus projetos, porque se você não fizer o trabalho bem, outra pessoa pode chegar e fazer por você – e acontece ocasionalmente aos projetos de código aberto e às pessoas pessoas que falam em fork.”
Richard Morris: “O boom da certificação Linux nos últimos anos teve um efeito positivo na confiança das empresas na plataforma? Ou foi a grande adoção pelas empresas que causou a demanda por certificação? Parece ser argumentável que a confiança na plataforma aumentou inversamente enquanto o status de um engenheiro de suporte caiu do nível de guru místico ao nível de um humilde técnico?
Linus Torvalds: “Hmm. Eu não vejo nesses termos, porque eu não acho que sejam pontos de vista opostos, mas o contrário – apenas a progressão natural da economia empresarial.
Sim, a adoção e a confiança de uma empresa estimula o interesse nas áreas que as empresas pagam, então a confiança de uma empresa obviamente resulta em maior demanda de certificações. Mas sim, também é um ciclo de feedback positivo, onde a disponibilidade da certificação acaba alimentando a confiança da empresa. E “confiança” é apenas outra forma de “familiaridade” – o mercado irá adotar o que for familiar para as empresas para que essa familiaridade possa crescer. Então eu não vejo nenhuma divisão aqui. Não é algo como “isso ou aquilo”, na verdade é o inverso. Quanto aos engenheiros de suporte e o “status ter abaixado”, eu acho que faz parte da mesma coisa. O que uma empresa menos quer são surpresas: ela quer estabilidade, labuta, mais do mesmo, planejamento a longo termo. Em outras palavras, quer familiaridade e confiança, e quer a mesma familiaridade e confiança em seus subordinados. Não quer surpresas.
Então a última coisa que o mercado quer é um “guru místico”. O Linux já está por aí há tanto tempo que o mercado confia no modelo e até gosta de ser associado com toda essa galera doida e incontrolável do código aberto (porque todos querem pensar que eles são imprevisíveis, até mesmo o menos imprevisível entre nós!), mas eles definitivamente também querem o mesmo engenheiro trabalhador chato e certinho de sempre.
Não é que as coisas cairam do nível de “guru místico ao de humilde técnico”, é que o mercado empresarial adicionou o técnico humilde, porque no fim das contas, o que o mercado realmente quer é labuta.
E eu posso perceber que a palavra “labuta” não precisa ser levada ao pé da letra, mas deve ser, e é o que o mercado empresarial quer. Eles também querem saber que tem um guru místico ao lado deles (eles conhecem o tipo, você só precisa imaginar), mas para o trabalho maçante, eles irão pegar o técnico humilde, ainda bem.
Então isso não tem nada a ver com aquele negócio de um contra o outro, é uma coisa mais do tipo “Eu levarei os dois”.
Richard Morris: “Eu não posso terminar sem te perguntar sobre a citação do Steve Ballmer. Você conhece aquela que ele diz que “Linux é um câncer que infecta tudo aquilo que toca no sentido de propriedade intelectual”. O que você acha que ele quis dizer com isso?”
Linus Torvalds: “Pra mim é difícil entender o que diabos o Ballmer está fazendo. Primeiro a dancinha do macaco, depois joga cadeiras. Uma vez ele chamou o Linux de “anti-americano”, aparentemente porque ele não gosta de competição. Depois a coisa do câncer. Agora essa fixação com o Yahoo! Quando isso irá terminar?
O que posso dizer? Acho que ele quis dizer que o código aberto cresce tão agressivamente e acaba tomando o controle (o que é bom – se você está dentro de todo esse negócio de mercado em expansão), mas ele quis dar a entender como se fosse algo que cresce sem controle e é ruim para o que está crescendo. Por exemplo: câncer
Então eu certamente posso ver a lógica na escolha dessa palavra.”
Richard Morris: “Você acha que tem algum sentido?”
Linus Torvalds: “Se eu acho que tem algum sentido? Não. É claro que o código aberto cresce agressivamente: Por que não? Custo baixo, grande qualidade, e o fato de não estar acorrentado a alguma empresa comercial que você não pode confiar por saber que elas apenas ficam felizes se puderem continuar tirando seu dinheiro. Claro que ele cresce.
E sim, esse crescimento tem um custo para a Microsoft, mas isso é chamado de “competição”. Isso não faz dele um “câncer” mais do que um dia possa ter feito dele “anti-americano”.”
Fonte: Simple-Talk






[...] UPDATE: Já está traduzida e publicada a segunda e última parte dessa entrevista. Para ler clique aqui! [...]
Cara.. Muito bom! Parabéns!
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[...] por Terramel (leonardo·saibotΘgmail·com) – referência [...]
Muito bom kra, parabens pela tradução.
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Muito bom, obrigado pela tradução.
=)
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Obrigado pela excelente tradução!
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Opa amigo! Obrigado pela tradução! A comunidade de software livre precisa dessas iniciativas para ampliar seu alcance e contemplar os que não dominam o inglês.
Quanto à entrevista, acho que o Linux é um puta radical, mas fazer o que? Gostei mesmo foi da última pergunta.
Abraço!
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Opa, excelente tradução !! loooooool
Gostei muito de ler a entrevista na integra, e acho q Linus tem toda a razão !!
E gosto muito dele, pq aindaa por cima é um cara muito bem humorado !! looool
O Linux, tá crescendo a um passo impressionante, ganhanddo cada vez mais adeptos !! looool
Eu já sou adepto do Linux há uns anos largos …. !! loooool
E acho q essa competição entre distros é muito boa, pois aumenta a qualidade das distros, assim como em projectos …. !! lool
Eu uso o Fedora e, a cada versão fico impressionado com os avanços feitos, nomeadamente nas últimas versões … !!
Abraços
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Muito bom o seu trabalho, parabéns!
Em relação ao seu trabalho, de tradução, vou destacar um ponto que o Linus fixou bem: qualidade. Sua tradução tem qualidade excelente (não cheguei a comparar com o texto original).
Parabéns novamente.
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Muito boa a tua tradução. Li a entrevista original e posso dizer que se a tradução não ficou perfeita pelo menos traduziu bem a essencia das respostas do Linus. Tank’s for your job
Último post que Teilor publicou foi: Comprando uma espécie desconhecida pela internet
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Galera, muito obrigado pelo elogio! Realmente fico muito feliz de saber que gostaram da tradução
Abraços
do Terrinha
Último post que Terramel publicou foi: Alguem ouviria o Podcast Terramel?
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